É estranho ouvir alguém quando nos despedimos dela:
"Quando puderes vem-me visitar"...
Estranho ouvir da boca de quem saiu...
Nunca tive grande relação de amor/carinho com ela...
É mais uma relação de reacção, de revolta por vezes...
Do que carinho...
Não deixa de ser uma mulher admirável a vários níveis mas reprovável a muitos outros...
Mas penso e numa vida inteira quem não tem coisas reprováveis?
Às vezes esqueço-me disso...
É mais fácil manifestar a revolta do que ser superior a isso...
E perceber que de um ser humano se trata...
Com defeitos e virtudes...
Não consigo apagar o passado...
Lembrar-me repetidamente das dores que foram imputando aos meus...
Isso, é o que impede...
Foi crescer a ver diferenças...
Crescer a ouvir criticar a vida de tudo e todos...
Darem motivos a perdas sem pés nem cabeças...
Tudo tinha que ser justificável por elas...
Tudo tinha um porquê mau...
E infelizmente tudo o que falaram...
Veio de volta e tocou quem parecia ser intocável...
Mas ontem assim como por meio de lágrimas veio o pedido...
Eu que tenho a mania que tenho um coração de pedra,
Mas senti-me comovida pelo pedido...
Pelas lágrimas e em tudo o que se tornou uma família...
E como deve ser triste para uma mãe ver assim a desavença entre filhos...
Netos que não a vistam...
A solidão da velhice...
Que mesmo com a casa, agora cheia deve sentir...
Daí aquelas palavras para mim...
As vezes cubro-me de raiva...
De revolta...
Mas não posso ser assim, não me leva a lado nenhum...
Não me traz quem me levou...
Não me faz sorrir...
Faz-me sim ser uma pessoa rancorosa
Fria e vazia...
Não traz sorrisos...
Não traz felicidade...
Não traz nada de bom,
Muito pelo contrário...
E a vida já me mostrou que quem muito fala da vida alheia...
Por muitas voltas que dê a vida cedo ou tarde o mesmo regressa...
Por isso não vale a pena...
Não vale a pena manter-me assim cheia de raiva...
Não me leva a lado nenhum...
Por isso sim apesar de tudo o que se passou...
Apesar de todas as magoas...
Que vão ficar no passado...
Sim, vou passar a visitar-te mais...
Afinal já só te tenho a ti...
E uma infância feliz entre primos e jantares convivios cresci...
Se calhar é a ti que devo o gostar de cozinha...
Sempre te vi entre tachos e panelas...
Se calhar foi contigo que aprendi a ser forte e seguir em frente...
Por muito que surja pelo caminho...
Tu também continuas cá...
São 85 anos cheios de muita coisa...
E sei que o teu fim de vida não te está a ser nada fácil...
E ter que pedir a uma neta para te visitar...
Não seria como o terias imaginado...
Mas ouvi-te...
Prometo...
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